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terça-feira, 26 de agosto de 2014

As crianças indígenas em Buenos Aires

Trabalhei por um bom tempo em Buenos Aires. Certo dia, após um bom café logo de manhã, dirigi-me até a garagem do hotel e peguei o automóvel para minha curta viagem de quinze quilômetros, até o escritório da empresa num bairro industrial da bela cidade portenha. À saída do hotel, não pude avançar além do portão lateral. Havia em parte daquela avenida, justamente defronte ao hotel, mais de cem crianças na faixa etária de 7 a 12 anos, mestiças, olhos vivos, belas, sentadas em carteiras velhas, compenetradas, disciplinadas, organizadamente dispostas e enfileiradas. Uma cena no mínimo inusitada. Retornei com o auto e o coloquei na vaga donde o retirara minutos antes. Curioso, fui até o professor que ministrava a sua aula para aquelas crianças interessadas e atenciosas. Perguntei se podia me responder o que significava aquela aula naquele lugar jamais apropriado para a ministração de uma aula. Ele, todo solícito pediu que as crianças o aguardassem por uns instantes, enquanto me explicava as razões daquele protesto: havia bom tempo que aguardava que as autoridades locais fizessem o serviço de manutenção em uma escola a 50 metros dali, que permitisse às crianças um mínimo de condições para o seu aprendizado. Como ninguém se dispusera a atendê-lo, resolveu parar o trânsito e ministrar as suas aulas ali mesmo, até que fosse atendido em suas reivindicações. O mais interessante foi a sua resposta, quando o indaguei sobre a que seria atribuído tal descaso público: "eles são mestiços, índios, considerados gente de segunda classe neste país.". Fiquei ao longo do dia a pensar naquela situação, naquele protesto tão bem articulado, com aquelas crianças consideradas menores na sua estatura moral, por causa de sua extraordinária e bela raça. As flechas contra o preconceito, a ser enfrentado ao longo da vida, estavam sendo afiadas desde cedo!


Juscelino V. Mendes
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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Nota de pesar

Antes da morte de Eduardo Campos, o PT o execrava, como um traidor, mimado e outros adjetivos desairosos; agora, morto, declaram-no como um homem que fora comprometido com o social e amigo do partido, em sua nota de pesar. O mais odioso em tudo isso é, primeiramente, o banal significado da morte de um ser humano para essa gente; o segundo, e de conseguinte, aproveitar-se disso para se "locupletar" dos votos que seriam depositados, nestas eleições, ao candidato tragicamente falecido. O Brasil está cada vez mais pobre de gente que pense o bem do outro, da comunidade, do País.


Juscelino V. Mendes

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Legisladores doentes

"Por esta causa a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta; porque o ímpio cerca o justo, e a justiça se manifesta distorcida."

(Habacuque 1:4 - A Bíblia)


Está tudo torto neste país. Pessoas de bem, doentes, não encontram vagas nos hospitais brasileiros, com a mesma facilidade que marginais torcedores (des)organizados encontram, quando se quebram nas ruas antes, durante e após os jogos. A assistência prestada àqueles selvagens ontem em Santos custou nosso dinheiro, proveniente de nossos tributos. A conta deveria ser enviada para cada um deles, cujos endereços são sobejamente conhecidos. Nossas leis são frágeis, porque nossos legisladores, que as produzem, são, em expressiva quantidade, interesseiros, incompetentes, ignorantes e corruptos.



Juscelino V. Mendes


sábado, 9 de agosto de 2014

Canto da noite









A luminosidade
encerra o fulgor
de um canto da noite,
a penetrar o seu véu
inconsútil,
em clarão estelar.



Juscelino V. Mendes






O amor não é dado

Enganam-se aqueles que pensam que o amor
é algo que aparece do nada,
de sensações místicas,
meramente emocionais.


Estou com Lucrécio, que
entende que o amor nasce
de um tempo compartilhado,
de uma construção.

Lição, portanto, de Lucrécio:

"O amor não é dado,
é construído."



Juscelino V. Mendes




sábado, 2 de agosto de 2014

REQUIESCANT IN PACE

REQUIESCANT IN PACE ¹


"Vaidade, ó vaidade, tua vitória!"
Finnegans Wake ²


Réplicas de mansões lordes
habitadas por fantasmas
de cavalheiros e damas
outrora nobres:


Próceres Senhores,
Senhoras e Brigadeiros
Políticos, Guerreiros,
Generais e Doutores,


desfilam gloriosos
preocupados em não
ser esquecidos por mundo vão.
Monturos suntuosos...


Não há Jorge Luis ³ 
nesse lugar de trevas,
recordo de almas primevas
como ele mesmo quis.


Não há negros alados,
nenhum guerreiro indígena,
de sua própria terra alienígena;
lázaros considerados.


Na capela, de estilo clássico com
quatro colunas de ordem jônica,
há um Cristo que dá a tônica,
mas não transcende o próprio tom


em mármore de Carrara, 4
pois, ao morrer na cruz,
o Verbo Divino, Jesus,
o tempo na eternidade fundara. 
5


Caminhando por ruas
estreitas nesta cidade
de máscara da realidade,
vejo pessoas nuas


que me olham com olhar
de mármore; de sonhadores
pálidos em meio às flores
que enfeitam o lugar


de salas lúgubres e odores
sagrados; faces da mesma
solidão que ensimesma
a noite e o dia dos atores.


Admiram-se em silêncio
sem eco e em contemplação;
perfeita recordação
daqueles que se movem no incêndio.


Desejam um fáustico pacto? 6
Que os belos mausoléus desse lado norte
captem a morte,
transformando-a em arte num acto?


Dorian Gray ficara atormentado
com a perda da juventude
na glória de toda a sua magnitude
ao mirar-se em retrato pintado. 
7


E aquele perfume do outro mundo
me inebriava com aperfeiçoada
sensibilidade naquela calçada,
acrescido de não sei quê nauseabundo.


Por instantes, quimeras!
Há um céu que me fita incomensurável,
marcando no tempo a vitória do Imutável:
Gigante, Forte, Soberbo em todas as eras.


Então, sob o sol norte, que me esquentava
a alma, preferi admirar a arquitetura
móvel das nuvens - cuja estrutura
entretinha meus olhos - e pensava:


"Ah! doce perfume do dia!
Prolongue-se e banhe minh´alma
neste rio almejante de vida calma
e torne ao meu ser a doce fantasia..."


Caminho para outra Ricoleta, 8
onde a vida é grassa,
feito a crisálida que passa,
desiderato do ser borboleta.
Requiescant in pace9

Juscelino V. Mendes


¹ Inscrição na parte superior do pórtico do Cemitério da Ricoleta: “Descansem em Paz”. Cemitério da cidade de Buenos Aires, situado ao norte da cidade originária. Deriva seu nome do antigo convento dos recoletos franciscanos, contíguo à igreja de Nossa Senhora do Pilar, onde até poucos anos teve sua sede o asilo de anciãos “General Vilmonte”. Na época de Rivadavia, o edifício chamado de Ricoleta foi destinado a cemitério público. Fundou-se em 1822 e se denominou Cemitério Norte.
² Título da obra de James Joyce. Escritor irlandês (Dublin, 1822-Zurich, 1941).
³ Escritor e poeta argentino, Jorge Luis Borges (1899-1986). Os últimos versos de seu poema “La Recoleta”, dizem: “Aquí no estaré yo, que seré parte del olvido que es la tenue sustancia de que está hecho el universo.”
4 Cristo em mármore de Carrara, de uma só peça, obra do escultor italiano Giulio Monteverde, 1837-1917.
5 “...Portanto, lembrai-vos de que vós outrora éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão, feita pela mão dos homens; que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Pois Ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um, destruiu a parede de separação, a barreira de inimizade que estava no meio, desfazendo na sua carne a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um só corpo, matando com ele a inimizade.” Carta de Paulo aos Efésios – 2:11-16.
6 Referência ao pacto proposto por Fausto, criação filosófico-poética do Poeta alemão Goethe, Johann Wolfgang (Frankfurt do Meno 1749-1832).
7 Referência ao romance “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde (Dublin, 1854-Paris, 1900), escritor inglês de origem irlandesa. O pintor Basil Hallward retrata numa tela a beleza do jovem Dorian Gray. Este passa a atormentar-se com a perda da juventude, formulando então, um desejo fáustico: quer permanecer belo e jovem, cabendo ao retrato captar o envelhecimento. O pacto logo revelará sua face trágica, e a questão da imortalidade assumirá fundo moral: a vida deve se transformar numa forma de arte?...
8 Referência ao belo bairro nobre ao norte da cidade de Buenos Aires.
9 “Descansem em paz"

Tristeza em estado puro

Sonhei esta noite
que morri sem tempo
de me despedir
dos entes queridos,
nem dos amigos.

Tristeza em estado puro.
Senti saudades,
Senti frio.
Ainda chorando 
acordei, 
com a sensação de um corpo 
que acabara de reencontrar a sua alma.



Juscelino V. Mendes