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sábado, 2 de agosto de 2014

REQUIESCANT IN PACE

REQUIESCANT IN PACE ¹


"Vaidade, ó vaidade, tua vitória!"
Finnegans Wake ²


Réplicas de mansões lordes
habitadas por fantasmas
de cavalheiros e damas
outrora nobres:


Próceres Senhores,
Senhoras e Brigadeiros
Políticos, Guerreiros,
Generais e Doutores,


desfilam gloriosos
preocupados em não
ser esquecidos por mundo vão.
Monturos suntuosos...


Não há Jorge Luis ³ 
nesse lugar de trevas,
recordo de almas primevas
como ele mesmo quis.


Não há negros alados,
nenhum guerreiro indígena,
de sua própria terra alienígena;
lázaros considerados.


Na capela, de estilo clássico com
quatro colunas de ordem jônica,
há um Cristo que dá a tônica,
mas não transcende o próprio tom


em mármore de Carrara, 4
pois, ao morrer na cruz,
o Verbo Divino, Jesus,
o tempo na eternidade fundara. 
5


Caminhando por ruas
estreitas nesta cidade
de máscara da realidade,
vejo pessoas nuas


que me olham com olhar
de mármore; de sonhadores
pálidos em meio às flores
que enfeitam o lugar


de salas lúgubres e odores
sagrados; faces da mesma
solidão que ensimesma
a noite e o dia dos atores.


Admiram-se em silêncio
sem eco e em contemplação;
perfeita recordação
daqueles que se movem no incêndio.


Desejam um fáustico pacto? 6
Que os belos mausoléus desse lado norte
captem a morte,
transformando-a em arte num acto?


Dorian Gray ficara atormentado
com a perda da juventude
na glória de toda a sua magnitude
ao mirar-se em retrato pintado. 
7


E aquele perfume do outro mundo
me inebriava com aperfeiçoada
sensibilidade naquela calçada,
acrescido de não sei quê nauseabundo.


Por instantes, quimeras!
Há um céu que me fita incomensurável,
marcando no tempo a vitória do Imutável:
Gigante, Forte, Soberbo em todas as eras.


Então, sob o sol norte, que me esquentava
a alma, preferi admirar a arquitetura
móvel das nuvens - cuja estrutura
entretinha meus olhos - e pensava:


"Ah! doce perfume do dia!
Prolongue-se e banhe minh´alma
neste rio almejante de vida calma
e torne ao meu ser a doce fantasia..."


Caminho para outra Ricoleta, 8
onde a vida é grassa,
feito a crisálida que passa,
desiderato do ser borboleta.
Requiescant in pace9

Juscelino V. Mendes


¹ Inscrição na parte superior do pórtico do Cemitério da Ricoleta: “Descansem em Paz”. Cemitério da cidade de Buenos Aires, situado ao norte da cidade originária. Deriva seu nome do antigo convento dos recoletos franciscanos, contíguo à igreja de Nossa Senhora do Pilar, onde até poucos anos teve sua sede o asilo de anciãos “General Vilmonte”. Na época de Rivadavia, o edifício chamado de Ricoleta foi destinado a cemitério público. Fundou-se em 1822 e se denominou Cemitério Norte.
² Título da obra de James Joyce. Escritor irlandês (Dublin, 1822-Zurich, 1941).
³ Escritor e poeta argentino, Jorge Luis Borges (1899-1986). Os últimos versos de seu poema “La Recoleta”, dizem: “Aquí no estaré yo, que seré parte del olvido que es la tenue sustancia de que está hecho el universo.”
4 Cristo em mármore de Carrara, de uma só peça, obra do escultor italiano Giulio Monteverde, 1837-1917.
5 “...Portanto, lembrai-vos de que vós outrora éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão, feita pela mão dos homens; que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. Pois Ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um, destruiu a parede de separação, a barreira de inimizade que estava no meio, desfazendo na sua carne a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz reconciliar ambos com Deus em um só corpo, matando com ele a inimizade.” Carta de Paulo aos Efésios – 2:11-16.
6 Referência ao pacto proposto por Fausto, criação filosófico-poética do Poeta alemão Goethe, Johann Wolfgang (Frankfurt do Meno 1749-1832).
7 Referência ao romance “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde (Dublin, 1854-Paris, 1900), escritor inglês de origem irlandesa. O pintor Basil Hallward retrata numa tela a beleza do jovem Dorian Gray. Este passa a atormentar-se com a perda da juventude, formulando então, um desejo fáustico: quer permanecer belo e jovem, cabendo ao retrato captar o envelhecimento. O pacto logo revelará sua face trágica, e a questão da imortalidade assumirá fundo moral: a vida deve se transformar numa forma de arte?...
8 Referência ao belo bairro nobre ao norte da cidade de Buenos Aires.
9 “Descansem em paz"

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