segunda-feira, 24 de maio de 2010

Nu Como Um Yanomami


"Então me mostrou o rio da água da vida, claro como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça, em ambas as margens do rio, estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês em mês. E as folhas da árvore são para a cura das nações. Ali nunca mais haverá maldição. Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e os seus servos o servirão, e verão a sua face, e na sua testa estará o seu nome. Ali não haverá mais noite. Não necessitarão de luz de lâmpada, nem da luz do sol, pois o Senhor Deus os iluminará. E reinarão para todo o sempre." (Apocalipse 22: 1-5)


Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de árvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio às árvores e não percebo o bosque.
Em meio aos frutos e não posso comer;
em meio às plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Às vezes suas águas, que nunca são as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar,
que é só meu, único e indescritível.
Impenetrável.
Ando ao encontro desse rio, cujas águas são azuis,
e chego exausto e trêmulo.
Nele, molho a minh’alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e úmido.
Ouço o cantar dos pássaros!
E como dos frutos das árvores próximas: maduros e doces, que me são permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam à medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros às vezes.
Não desejo ainda chegar.
As suas águas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trás um rio lento e suave a caminho do mar, que não consigo enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu, não me conheço.
Continuo, contudo, um yanomami.


Juscelino V. Mendes




Compus este poema em uma noite de verão em Salvador. Senti-me solitário e triste em um quarto de hotel. Dei-me conta de que uma dia morreria; que a morte estava mais próxima a cada dia vivido. Senti-me, não obstante a fé e segurança em Deus, um quase nada humano diante daquela realidade imutável. À medida que compunha o poema, meus pensamentos retornavam ao presente da vida e me tornava mais forte. Senti-me um Yanomami livre de quaisquer amarras, e, ao mesmo tempo, vestido para a civilização, um "ser-no-mundo" existencial, no sentido em que Matin Heidegger usa em "Ser e Tempo". O poema saiu de chofre e o dediquei a um dos grandes poetas do Ceará e à sua obra então publicada "Psi, a Penúltima", que eu lera horas antes e que muito me inspirara.
Este poema foi objeto de concurso em Portugal e selecionado para publicação com outros poetas portuguêses. As fotografias foram tomadas no ano de 1971, quando os índios Yanomamis eram isolados e muito pouco aculturados. PESQUISA REALIZADA NOS ÍNDIOS YANOMAMIS APÔIO PROJETO RONDON [www.cleber.com.br/fotoyano.html].

domingo, 16 de maio de 2010

Todos mestiços de mundo vão



















Negros, mulatos,
pardos, índios,
brancos, amarelos,
olhos negros, de gatos,
castanhos, azuis
feito o mar,
feito as flores!
Todos mestiços de mundo vão:
Quem sentirá a minha falta quando
eu caminhar pela estrada,
sem virar o pescoço para trás?

Quem sentirá a nossa falta,
quando todos partirmos
se somos simbiose de nós mesmos,
ano trás ano?



Juscelino V. Mendes


quinta-feira, 6 de maio de 2010

Noites coloridas

 




















Espasmos

De memória febril

Diz-se para si mesmo

Clímax espraia em som

Palavras proferidas

Noites coloridas

E descanso.

Juscelino V. Mendes



Pablo Picasso - Crédito - Imagem: http://www.nzine.co.nz/images/articles/picasso_lg.jpg

quinta-feira, 29 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

As chamas de almas mortas




















(Para Galdino Jesus dos Santos)
                           - In Memorian 


As chamas de almas mortas
Se movem. Mais um índio cai inerte
Envolto pelas flamas ignotas
De um desdenhar que perverte.

Almas que se ocultam entre chamas
Para destilar ódio, amargura, desdém
E, surdas, em suas tramas,
Não escutam um ser considerado ninguém.

Em meio àquelas labaredas, terminal
De sonhos, esperanças, calor...
De madrugada seca e infernal
Tudo vira tocha em macabro ardor.

(Vislumbramos a solidão do deserto
Que há em todos nós, que navegamos
Em mar vermelho e incerto
De tubarões gélidos que encontramos)

Era um Pataxó que quisera ser
Mendigo de suas próprias heranças
Destronado que fora dos sonhos de ter
Suas matas, habitadas de lembranças.

Recebeu sua parte comendo o pão
Buscado sob mesas fartas,
O seu pedaço de chão:
Em chamas, à semelhança de suas matas.


Juscelino V. Mendes


  1. Eu, autor desse poema, sou neto de uma Pataxó Hã-Hã-Hãe, Ana Maria de Jesus, falecida aos 95 anos em 2003. Em reportagem de Marina Lemle, sob o título, "A caso e causa do índio Galdino, do Jornal do Brasil, a reporter faz citação deste poema, em 8 de novembro de 2001. Senti enormemente a morte de Galdino, como um ente muito próximo. 
  1. Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=y1Hwf3KXKIc&feature=related
     - Clique no título do poema e assista!

domingo, 18 de abril de 2010

Nas desigualdades de quimeras vãs


















Potentior est quam vox mens dicentis


E as baías são todas iguais
Nas desigualdades de quimeras vãs.
Tratamentos desiguais:

Por águas turvas e escuras
Que comunicam rios de leitos duros de pedra
Iguais ao Phlegethon, fonte de agruras

A suportar navios à deriva,
Sem Timoneiro que lhes possa conduzir
A ribeiros de água clara sempre-viva.

Hipocrisias de risos, de luzes, de cores
De espinhos cravados na alma
Que não vêm de flores.

E a Constituição diz não:
À indiferença, à intolerância, ao racismo,
Mas pouco vale se diz não o coração.


Juscelino V. Mendes

  1. A epígrafe: expressão latina, "A intenção de quem fala é mais poderosa do que as palavras".
  2. Phlegethon: esse rio é parte do rio do Inferno - "em silêncio chegamos ao lugar onde flui, saído da selva, um curso d'água cuja cor de sangue ainda me horroriza" - in Inferno, Canto XIV, 76-78 da Divina Comédia de Dante Alighieri.
  3. A Constituição Federal do Brasil, de 5/10/88, art. 5º, XLI, diz: "A lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais".
  4. Fotografia - crédito: http://www.flickr.com/photos/christianny/428937710/