sábado, 4 de fevereiro de 2012

Não serei mais




"...Cada vez que eu me despeço de uma pessoa pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez. A morte, surda, caminha ao meu lado. E eu não sei em que esquina ela vai me beijar..."
(Raul Seixas¹)



Acontecerá num vôo qualquer,
automóvel,
guiando ou guiado,
pedestre
numa desatenção,
pensando no primeiro movimento
"Trois Gymnopedies" de Satie?

Numa explosão no mar,
batida brusca,
um leve desaparecer,
lendo, escrevendo
um livro, cujas linhas sumirão
feito névoa?

Não serei mais
nada
quando ela chegar;
não será mais
nada
quando eu me for.

Contudo, estarei além do rio
em ruas de ouro
para sempre.


Juscelino V. Mendes

______________________________________
(1) Epígrafe: trecho da letra "Canto para minha morte" de Raul Seixas e Paulo Coelho.


Sobre a obra


Reflexão filosófica-poética sobre a vida, no dia de meu aniversário, sobre a morte e alem dela. Neste sentido, o último inimigo a ser destruido é a morte, conforme a 1ª Carta de Paulo aos Coríntios, 15.26. Se não serei mais, ela, tambem, não mais poderia me alcançar, daí a vitória definitiva. E não se enganem pelas aparências do poema. Gosto muito da bela música de Caetano Veloso:

Araçá Azul é sonho-segredo
Não é segredo
Araçá Azul fica sendo
O nome mais belo do medo

Com fé em Deus
Eu não vou morrer tão cedo



Imagem: http://www.overmundo.com.br/uploads/banco/multiplas/1222958391_meister_des_mausoleums_der_galla_placidia_in_ravenna_002.jpg

sábado, 28 de janeiro de 2012

Haicais




Nuvens escuras -
Verão: choro abundante
Em densas trevas

Murky and dark clouds -
Summer: abundant whimpers
In compacted night

Límpido céu
Nuvens de azul intenso
Riachos longínquos

Limpid the heavens
Clouds of intense blue colour
Far away streamlets

Longas estradas
Curvas acentuadas
É quase inverno

Lenghty the highways
Of accentuated curves
It´s almost winter

Juscelino V. Mendes




Um haicai para ser haicai, e preservar as origens nipônicas, há que nascer de algo visto e sentido da natureza pelo poeta. Há muita gente chamando de haicai o que haicai não é. Vemos e sentimos toda a cena, quando lemos o belo poema do mestre do haicai, o poeta japonês Matsuo Basho (1644-1694), quando, ao contemplar uma lagoa tranquila, escreve:

Furu Ike ya  
Kawasu tobikomu
Mizu no oto

velho lago 
mergulha a rã 
fragor d'água

Você não chega a perceber essa rã e o fragor d'água ao ler este haicai?

sábado, 21 de janeiro de 2012

AO SOM DO REGGAE



















No espaço
depois da escrita
ficou o som de Tosh: 
NothingBut Love, 
Pick Myself Up 
E no som estavas tu-eu.
Tocando o tambor mágico do tempo

E porque eu-tu
nós
somos parte do tempo
estaremos permanentemente em toda parte.

No tambor
no som de Marley: 
KinkyReggae, 
Rainbow Country
no tempo
e nas coisas.

Juscelino V. Mendes






Na música, no som, sempre ficam as coisas mais profundas, indeléveis, marcantes E cada vez que se repete aquele som, os sentires todos se amalgamam em perfeita harmonia no presente, no instante da vida.



domingo, 1 de janeiro de 2012

Deveras a vida se renova











Já o ano que se faz novo
Adia um tempo que passou;
Deveras a vida se renova
E delicadamente me beija!
Bebo o beijo em copo de cristal
E no charme do amor,
Espraia-me o gesto
Espumante da vida!

Juscelino V. Mendes



(Mundo, 1º de janeiro de 2012) - 

Imagem - fonte: http://www.flickr.com/photos/dondyego/2762056700

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sonhos pretéritos











Quando sinto a finitude
se aproximar, recolho-me,
olho para o mar
em gratidão.

Acolho-me
em sonhos pretéritos.

Juscelino V. Mendes




sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Encontro


(p/ Juscelino Mendes)


"Et puis attendre que l'oiseau se décide à chater"
(J.Prévert)


Quando te vi era silêncio.
Nos versos de um poeta, as vozes se encontraram.
No murmúrio das imagens, os sorrisos se acenderam.

Nas luzes das palavras,
Um pássaro voou.

Teceu-se o poema do encontro:
Num sopro de liberdade,
A amizade cantou...
Na sombra de lento encanto,
Na paz de um doce caminho,
A promessa do sempre ecoou.

Sigamos assim, cantando pela vida...
Pois o fim do poema é a volta do silêncio.
Apagam-se as palavras
E o branco mudo da página
É o sono de quem fala
É a morte de quem cala.


Lília Chaves, poeta.


Mimo de minha amiga, em 20/04/97.
Agradecimentos pelo carinho, sempre...