sexta-feira, 29 de novembro de 2013

João divisa Borges












(p/ João Cabral de Melo Neto)

João divisa Borges
na lucidez da cegueira:
Olhos cobrem
pálpebras côncavas,
interinidades convexas.
Brilho intenso e clarão fosforescente
Pernambuco - Andaluzia.
Abrem-se-lhes os olhos além-mundo
'Theorein' acontece... acabam-se as trevas?

Juscelino V. Mendes
Theorein: palavra grega que significa tanto ver quanto saber.


Sobre o poema

Poema composto por ocasião da morte de João Cabral de Melo Neto em 1999. Singela homenagem àquele que foi um dos maiores poetas brasileiros.

"O poeta João Cabral de Melo Neto, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira, morreu no dia 9 de outubro, praticamente cego. Triste ironia para um poeta que amava a pintura e cuja poesia explora os recursos da imagem. A obsessão construtiva fez da poesia de João Cabral um caminho singular, incomum, na literatura brasileira deste século. Poesia rigorosa, cerebral e construtiva, como o trabalho de um "engenheiro" da composição. Nascido em Pernambuco (1920), passou parte da infância vivendo em engenhos de cana-de-açúcar, experiência que marcou profundamente sua visão de mundo e sua percepção estética. Estudou em Recife com os Irmãos Maristas, mas não teve curso superior..."
http://www.weblivros.com.br/especial/jo-o-cabral-de-melo-neto.html - Borges entra pela identidade na cegueira e mente iluminada. 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Musical



o tempo flui,
voa,
amortece,
chove
musical
a suave fala
embebeda-me o flúmen:

correnteza doce.
Juscelino V. Mendes








A República e os mensaleiros

Nestes dias de condenação e encarceramento (?) de mensaleiros (nem precisamos mais das aspas), cito a apropriada palavra de Michel Foucault, sobre o encadeamento natural existente entre o delinquente e a própria lei, em simbiose perfeita:


"Nesta sociedade panóptica, cuja defesa onipresente é o encarceramento, o delinquente não está fora da lei; mas desde o início, dentro dela, na própria essência da lei ou pelo menos bem no meio desses mecanismos que fazem passar insensivelmente da disciplina à lei, do desvio à infração. Se é verdade que a prisão sanciona a delinquência, esta no essencial é fabricada num encarceramento e por um encarceramento que a prisão no fim de contas continua por sua vez. A prisão é apenas a continuação natural, nada mais que um grau superior dessa hierarquia percorrida passo a passo. O delinquente é um produto da instituição. Não admira, pois, que, numa proporção considerável, a biografia dos condenados passe por todos esses mecanismos e estabelecimentos dos quais fingimos crer que se destinavam a evitar a prisão."- (M. Foucault, Vigiar e punir, p. 249).

Mudando o que deve ser mudado, como diriam os latinos, o amálgama que há entre a Instituição e esses mensaleiros de categoria 'superior' é de uma clareza tropical impressionante! Melhor seria a "humilhação" da devolução, centavo por centavo, do dinheiro furtado ao Erário, aproveitando comemoração deste dia da proclamação da República brasileira.




Juscelino V. Mendes








sábado, 14 de setembro de 2013

Senhor Celso, seja Excelso!


O ministro mais antigo do Supremo Tribunal Federal - STF, Celso de Melo terá a oportunidade de demonstrar se a Suprema Corte do Brasil, com apenas parte de seus pares, é ainda confiável, ao não permitir que os Embargos Infringentes propostos pelos réus do 'mensalão', permitam que os meliantes engravatados fiquem impunes de suas mazelas mensaleiras. 


O ministro poderá, também, com o seu voto de minerva, provar que o ex-ministro da justiça, Saulo Ramos, estava certo ao dizer em seu livro, "Código da Vida", o seguinte:


"Celso de Melo será um bom juiz até a sua aposentadoria em 2015 (...). Num dos votos mais duros contra os acusados do mensalão, Celso de Melo disse que os réus eram 'marginais do poder' e formaram uma quadrilha de 'verdadeiros assaltantes dos cofres públicos'." (Saulo RAMOS, Código da Vida, p. 193-194). 

Se se mantiver a mesma justiça, o seu voto será pelo NÃO aos bandidos.

E como se fosse uma partida de futebol, aguardemos até a próxima quarta-feira, para que o árbitro decida se o gol foi legítimo, ou não! Não foi, senhor juiz! Não foi. O povão pode não entender de leis, mas entende de in-justiça! E como entende...

Que a nossa Suprema Corte não proceda feito os nossos tribunais do futebol. 



Senhor Celso, seja Excelso! Não mele, sr. Melo, a nossa Justiça, mais do que já está. 

Esse jogo retrancado já está a mexer, como diria o mensaleiro-mor, Jefferson, com os nossos "instintos mais primitivos", senhores ministros!

Juscelino V. Mendes





domingo, 8 de setembro de 2013

Hades colonial

Trens de doido,
Colônia,
Barbacena.



E meu avô,
Lindolfo Martins Mendes,
Um dentre milhares no hades.

Vitimadas,
Enclausuradas do ser,
E o nada nadifica.

Nudez gelada,
Envergonhada,
Frio na alma.


Solidão em massa,
Colônia do inferno,
Chocante tortura.

Holocausto Brasil,
Terra de loucos assassinos,
Estado cruel.


Foucault teria ficado doido.
É doído.
Mas quem é o Estado?


Composição de gente louca,
que se arvora em ser dona
e determinante da morte:


Clausura da vida!
O mundo jaz no maligno.
Saudades de meu avô.

Juscelino V. Mendes





1 João 5.19: "Nós sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro está sob o poder do maligno."
Poema composto, a partir da leitura da impressionante obra "Holocausto brasileiro", de Daniela Arbex. (Foto copiada do livro, sob a informação: "Prédio do hospital que sediaria o futuro museu da loucura").
Em Heidegger, a expressão "O nada nadifica" significa que a forma de o nada se manifestar é em si mesmo. É, pois, causa e efeito da angústia.  
Michel Foucault, filósofo francês, que afirmou: "Nunca a psicologia poderá dizer a verdade sobre a loucura, já que essa que detém a verdade da psicologia." in "Doença mental e psicologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975. p. 71-99".





sábado, 24 de agosto de 2013

Panair - Maldita dura realidade

Eu era um guri em Vitória da Conquista.
Sonhava com o pássaro de aço
e imaginava como era voar,
feito Fernão Capelo e Gaivota,
dentro daquela maravilha,
chamada Panair.
Um amigo me dissera que
no "Paná-ir" só ia gente rica
e, sendo pobre, só nas figuras
da revista vendida na única
banca da praça Barão do Rio Branco.
Comia meu acarajé, mas sempre
pensando na Panair, e nas garotas
lindas que, aprendi muito depois,
serem suas aeromoças!
Logo depois de meu aniversário
naquele 4 de fevereiro,
ouvi o Reporter Esso,

e a notícia fatídica, dolorosa,
sobre o maior acidente aéreo
do Brasil: Castelo Branco
derrubara a Panair e não
deixara nenhum sobrevivente.
Aquele pássaro nunca mais voaria,
acabando com meus sonhos.
Era a maldita dura realidade
daquele dez de fevereiro de
1965, que, por mais duas
décadas, nos fez ficção.

Juscelino V. Mendes